Decorum: O Ponto Fora da Curva da Ficção Científica em Quadrinhos
Decorum: O Ponto Fora da Curva da Ficção Científica em Quadrinhos
Uma análise sobre a ficção científica densa de Hickman, a arte psicodélica de Huddleston e o caos no coração da ordem.
Bem, nas minhas últimas leituras, acabei por ler a HQ autoral de Jonathan Hickman e Mike Huddleston, e foi uma experiência provocante. Creio que, dentro do mercado de HQs americano, Decorum é um ponto estrambótico.
Decorum se trata de uma space opera que narra a aventura de um clã de mulheres assassinas. Dá até para traçar um paralelo com o universo de assassinos de John Wick.
A história se passa em um futuro muito distante, em meio a guerras intergalácticas e impérios religiosos. Nós acompanhamos a história a partir de Neha Nori Sood, uma jovem adolescente que trabalha com entregas para um chefe da máfia. Em uma dessas entregas, ela conhece, de forma ocasional, Imogen Smith-Morley, a mais sofisticada assassina do universo, que enxerga potencial em Neha e a recruta para fazer parte do clã.
Essa é bem no estilo Hickman: ele realmente ama a ficção científica. Como também faz em suas obras que escreve para a Marvel, há infográficos, criação de símbolos; entretanto, aqui em Decorum, Hickman tem total liberdade. Admito que, em certos momentos, fica um pouco enfadonho, mas não é nada que atrapalhe a leitura.
Acredito que a formação de Hickman em arquitetura contribua muito para a criação de mundo de suas histórias, tanto na montagem dos infográficos como na forma como ele conduz o roteiro. Ele está sempre pensando além. E, também, pelo que percebi, Hickman parece adorar linguística,
com uma certa influência de Chomsky; entretanto, essa influência fica mais evidente em outras obras, por exemplo em The Nightly News. Em Decorum, o recurso linguístico é mais usado para causar um momento cômico, parecido com o que ele fez na saga Infinity para a Marvel.
Decorum é uma palavra de origem latina que significa decência, dignidade, ou aquilo que convém e é adequado. É um título bem irônico, já que, na história, o que se vê é o oposto; pois como um grupo de mulheres assassinas pode ter esse decoro, mantendo uma fachada, já que vive em um mundo repleto de violência? Nas imagens, se mostra bastante violência. Imogen é a personificação dessa ironia, pois ela é uma assassina altamente qualificada; contudo, é um poço de elegância e educação.
Já Neha é uma órfã, bem mal-educada, que, ao ser recrutada, tem dificuldade em se tornar uma assassina; nas suas primeiras missões, ela não consegue matar, pois sempre tem ânsia e acaba por vomitar.
Outro ponto abordado por Hickman é a religião. Em paralelo com a história de Neha, acompanhamos um ser de forma geométrica à procura de um ovo celestial, a mando de uma entidade — o deus desse universo. E aqui foi o ponto que eu mais gostei da obra.
Basicamente, esse deus é uma inteligência artificial que foi programada, pelo que entendi, há muitos anos, e está atrás desse ovo, pois ali está sendo gerado o ser que vai reprogramar essa inteligência artificial e acabar com o caos.
Esse final foi muito “viajado” pelo Hickman, mas eu gostei de como ele traça esse paralelo de que, no futuro, vamos ser regidos por uma máquina.
E, bem, a arte de Huddleston é um deleite à parte. Ele tem um traço simples e minimalista, praticamente cartunesco. Entretanto, ao longo da história, ele diversifica muito a arte, com influências de pop art e pintura digital. Utiliza bastante formas geométricas para criar as spaceships, com uma colorização bem psicodélica. Eu simplesmente adoro essa afronesia digital.
Claramente, há mais pontos que se pode absorver da leitura de Decorum, mas o que está escrito aqui é o que capturei da história. Vale muito a pena ler essa HQ.



Comentários
Postar um comentário